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A Bela e a Crise

por Luísa Braga

A Bela e a Crise

por Luísa Braga

Para a Minha Tia Laura

Antes de começar, uma breve explicação: o meu portátil pifou e arranjei um part-time! Daí não escrever nada há muito tempo! (: peço desculpa e... estou de volta!

 

Já há algum tempo que ando com isto na cabeça e acho que chegou a hora de partilhar esta história, não só da minha tia, mas também de muitas mulheres e homens por este mundo fora.

 

O ano passado, mais ou menos por esta altura, a minha tia foi internada, depois de uma colonoscopia - todos sabíamos que ela tinha problemas de trânsito intestinal, mas todos (incluindo ela) achávamos que não era nada de especial. Até ela ficar internada.

 

A minha mãe ligou-me aflita. "A tia Laura está internada". Meio mundo caiu naquele dia. Digo meio, porque o outro meio ainda estava por cair. Ela esteve no hospital durante dois dias e depois veio para casa. Afinal, o que os médicos achavam gravíssimo, não era assim tão grave. 

 

Respirámos de alívio. Agora era esperar por um diagnóstico e exame final que ela iria fazer dias depois.

 

No dia do exame, liguei ao meu primo. Pedi-lhe que me avisasse quando soubessem os resultados. Os meus tios estão emigrados em França e todo o contato era feito por telefone.

 

À noite, o meu primo ligou-me: "Olha... a minha mãe tem cancro."

 

O outro meio mundo que não tinha caído dias antes, ia agora de vela. Ao que é que tu associas a palavra "cancro"? MORTE. E não há mais nada. Era a única coisa que me vinha à cabeça e foi o que me inundou durante uma semana: morte morte morte morte morte morte.

 

Naquela hora, não sei onde raio arranjei força e voz para ligar à minha tia, mas arranjei-a. Sabia que por mais que aquilo me custasse a mim, a ela custava-lhe mil vezes mais.

 

- Então tia? - perguntei-lhe.

- Então? Então agora é seguir em frente e lutar. Deus e a Nossa Senhora hão-de ajudar-me! 

 

Dei o meu máximo para lhe dar a maior força possível nesse telefonema. Como é que tu podes apoiar alguém apenas por telefone? Sem veres a pessoa, sem ter a certeza de que está minimamente bem? Bem, eu e toda a família que está cá tivemos de o fazer.

 

Depois de desligar o telefone, fui-me abaixo. Porque era a MINHA tia, uma das minhas melhores amigas. Porque ela ia morrer. Porque eu estava longe e não podia ajudá-la. Porque a vida não era justa.

 

Durante uma semana, chorava todos os dias até adormecer. Não deixei ninguém ver a minha fraqueza, para além do Sérgio. E hoje é a primeira vez que falo dela. Senti-me impotente e revoltada. Só queria apanhar um avião e ir ter com ela, para poder olhar para ela e ver realmente como ela estava - eu sou daquelas que só acredita naquilo que vê.

 

A tia teve de fazer quimio e radioterapia. O cabelo não lhe caiu e a quimio foi oral. Depois, foi operada. Durante TODO o processo, sempre que lhe ligava, ela não me mostrou um único momento de fraqueza ou falta de fé. Ela é a prova de que encarar as coisas de forma positiva é meio caminho andado para que tudo corra bem. 

 

Depois da operação (em que os médicos removeram o tumor), ela foi aconselhada a fazer mais sessões de quimio, por prevenção. O maior medo dela era perder o cabelo. Afinal, qual é a mulher que não tem vaidade no cabelo? Graças a Deus, isso não aconteceu.

 

A minha tia Laura terminou os tratamentos o mês passado. Pela frente, temos 5 anos de incertezas, mas de esperança também. A minha tia Laura é uma heroína, é a melhor do mundo e eu tenho a certeza de que tudo vais correr pelo melhor.

 

A todas as "tias Lauras" que estejam a ler isto, não desistam. Nunca desistam!

 

 

 

beijinhos, Lu*